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16/01/2026 10:00

Cirrose hepática: fatores de risco, diagnóstico e cuidados essenciais

O fígado é a maior glândula do corpo e está localizado na parte superior direita do abdômen, abaixo do músculo diafragma e acima do estômago, do rim direito e dos intestinos. É um órgão com funções múltiplas e fundamentais para o funcionamento do organismo.

Entre elas, destacam-se:

  • Metabolismo da glicose
  • Metabolismo das proteínas
  • Armazenamento de vitaminas e minerais
  • Metabolismo de medicamentos
  • Eliminação de toxinas
  • Produzir proteínas, fatores de coagulação, triglicerídeos, colesterol e bile
  • Regulação da coagulação sanguínea

O fígado tem extrema capacidade de regeneração, o que permite o transplante de uma parte do fígado para um paciente com necessidade de transplante hepático. Mas, mesmo com essa vantagem, ele pode ser comprometido e desenvolver uma condição chamada cirrose hepática. Neste artigo, vamos abordar o que é essa condição, causas principais, manifestações clínicas, diagnóstico, propostas de tratamento e medidas preventivas que garantem a saúde de um órgão tão vital para nossa vida.

Leia sobre:

1. Definição
2. Epidemiologia
3. Causas
4. Apresentação clínica
5. Diagnóstico
6. Complicações
7. Tratamento e prevenção
8. Conte com o nosso plano para se cuidar
9. Autodeclaração de saúde
10. Referências bibliográficas

Definição

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A cirrose hepática é o resultado final de diversos processos crônicos que acometem o fígado ao longo dos anos, levando à substituição do tecido hepático normal por tecido cicatricial. Essa condição altera a estrutura física e a função hepática, podendo evoluir para insuficiência hepática e suas complicações. É uma condição irreversível quando instalada.

Este artigo tem como objetivo revisar os principais aspectos relacionados à compreensão dessa condição com o objetivo de elucidar causas, quadro clínico, diagnóstico, propostas de tratamento e, principalmente, informar sobre os riscos modificáveis que podem reduzir a evolução desfavorável da doença e a mortalidade.

Epidemiologia

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a cirrose hepática está entre as dez principais causas de morte no mundo, sendo responsável por cerca de 2 milhões de óbitos anuais. No Brasil, o número de internações e óbitos relacionados à doença tem aumentado, devido ao crescimento de fatores de risco como obesidade, hepatites virais e uso abusivo de álcool. Segundo o Ministério da Saúde, estima-se que cerca de 1% da população brasileira apresente alguma forma de doença hepática crônica.

Causas

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As causas mais comuns de cirrose hepática no Brasil e no mundo são secundárias ao uso abusivo do álcool, hepatites B e C, e doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA).

1) Cirrose alcoólica

O consumo excessivo, diário e prolongado de álcool (60 g/dia para homens e 40 g/d para mulheres) pode levar ao desenvolvimento de lesões permanentes no fígado.

2) Hepatites virais (B, C e Delta)

  • A infecção pelo vírus da hepatite B cura em cerca de 80% dos casos.
  • Já a infecção pelo vírus C pode evoluir para a forma crônica em 80% dos casos.
  • A hepatite Delta ocorre em pacientes já infectados pelo vírus da hepatite B, sendo bastante comum na região Norte do país.

3) Doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) tem como fatores desencadeantes:

  • Obesidade
  • Diabetes tipo 2
  • Dislipidemia (aumento de colesterol e triglicérides)
  • Hipotireoidismo
  • Desnutrição grave
  • Alguns medicamentos (anti-inflamatórios, por exemplo) podem também levar ao depósito de gordura no fígado (esteatose hepática), que em graus mais avançados pode evoluir para esteato-hepatite, fibrose e cirrose.
  • Diversos medicamentos naturais, incluindo chás e suplementos fitoterápicos, podem causar lesões no fígado, que variam desde alterações assintomáticas das enzimas hepáticas até hepatite fulminante e cirrose. A toxicidade depende da dose, duração do uso e da sensibilidade individual. Natural não significa seguro e isento de efeitos colaterais potencialmente graves! Existem outras causas menos frequentes que podem causar cirrose hepática. Entretanto, cerca de 10% a 20% dos casos não têm causa identificada.

Apresentação clínica

Os sintomas dependem do estágio da doença. Com frequência, o paciente é assintomático ou apresenta sinais e sintomas inespecíficos.

Fase compensada

  • Fadiga
  • Falta de apetite
  • Perda de peso

Fase descompensada

  • Inchaço: edema nas pernas, acúmulo de líquido na barriga (ascite) e pulmão (derrame pleural).
  • Icterícia: pele e olhos amarelos.
  • Alterações hormonais: mulheres podem parar de menstruar, homens podem ter impotência sexual, ginecomastia (mamas aumentadas) e diminuição de pelos axilares e pubianos, atrofia de testículos.
  • Sangramentos: equimoses e sangramentos espontâneos.
  • Eritema palmar: palmas das mãos avermelhadas.
  • Ascite: acúmulo do líquido no abdômen.
  • Varizes de esôfago: similar às varizes das pernas, também podem acontecer nos vasos do esôfago e apresentam risco de sangramento – hemorragia digestiva.
  • Alterações neurológicas: como o fígado não consegue processar as toxinas, pode haver acúmulo de amônia, que pode causar alterações no sistema nervoso.

Diagnóstico

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O diagnóstico, na maioria dos casos, é feito com base em história clínica, exame físico, exames de sangue específicos para avaliação da função hepática, ultrassonografia do abdômen superior. Em alguns casos, pode haver necessidade de exames mais sofisticados, como ressonância magnética e endoscopia digestiva para avaliar a presença de varizes de esôfago. A biópsia hepática é indicada em casos específicos.

O médico definirá a necessidade e a prioridade dos exames para diagnóstico, de acordo com a história e o quadro clínico que o paciente apresenta.

Complicações

Por ser uma doença crônica e irreversível, a cirrose hepática pode desencadear uma série de complicações graves.

As mais frequentes são:

  • Hipertensão portal: todo o sangue que vem do sistema digestivo (estômago, intestinos, pâncreas) e do baço passa obrigatoriamente pelo fígado antes de seguir para o resto do corpo. Todas as veias desses órgãos desembocam em uma única grande veia do fígado: a veia porta.

    Quando a cirrose está estabelecida, há um aumento da pressão na veia porta, dando início a um processo chamado hipertensão portal, que leva à formação de varizes no esôfago, no estômago e no reto (quando calibrosas, podem causar sangramentos digestivos graves).

    Além disso, a produção insuficiente de proteínas pelo fígado doente causa a formação de ascite (acúmulo de líquido no abdômen).
  • Encefalopatia hepática: são alterações neuropsiquiátricas, potencialmente reversíveis, caracterizadas por mudanças na personalidade e no comprometimento do funcionamento do cérebro, da função motora e do nível de consciência, decorrentes da incapacidade do fígado de metabolizar neurotoxinas (amônia).

    O paciente pode apresentar desde pequenas alterações mentais até sonolência, desorientação ou coma, nos casos mais graves.
  • Aumento do baço (esplenomegalia): o baço é o órgão responsável, entre outras coisas, por eliminar as células do sangue que já estão velhas. Cada vez que o sangue passa pelo baço, milhares de células são removidas para que haja espaço para a chegada de novas células sanguíneas, como hemácia, plaquetas e leucócitos.

    Na hipertensão portal, o sangue que deveria sair do baço para o fígado fica “preso” e permanece mais tempo dentro do próprio baço, que acaba por eliminar mais células sanguíneas do que seria necessário, causando assim, anemia, plaquetopenia (plaquetas baixas) e leucopenia (leucócitos baixos).

    O paciente fica mais vulnerável a sangramentos e infecções.
  • Síndrome hepatorrenal: é um tipo de insuficiência renal que ocorre em decorrência da insuficiência hepática, sem alteração da anatomia do rim. Ocorre em estágios avançados da cirrose hepática.
  • Câncer primário do fígado (hepatocarcinoma): pacientes com cirrose hepática têm cerca de 30% de chance de desenvolver hepatocarcinoma, principalmente se a cirrose for secundária a hepatite B, hepatite C, doença hepática gordurosa não alcoólica (depósito de gordura no fígado) ou alcoólica.
  • Desnutrição e perda de massa muscular (sarcopenia): na cirrose hepática, há má absorção de nutrientes por diminuição do fluxo de bile e do edema da parede do intestino, redução do estoque hepático de vitaminas e micronutrientes e redução do metabolismo hepático, levando a um quadro de desnutrição grave e sarcopenia (perda de músculos), muitas vezes, irreversível.
  • Infecções bacterianas: as infecções bacterianas em pacientes com cirrose são uma complicação grave que requer reconhecimento precoce e tratamento específico imediato, pois têm impacto na sobrevivência do paciente (alto risco de óbito).

    Estudos mostram que 32-34% dos cirróticos desenvolvem infecção bacteriana na admissão ou durante uma hospitalização. Na presença de sangramento digestivo, o índice aumenta para 45%.

As mais comuns são:

  1. Infecção do peritônio, membrana que envolve os órgãos abdominais (peritonite bacteriana espontânea)
  2. Infecção do trato urinário, pulmão, pele e tecidos moles (músculos, gordura, vasos sanguíneos)

Tratamento e prevenção

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O tratamento foca em suspender a causa que está agredindo o fígado, ou seja, as abordagens terapêuticas envolvem medidas, como suspender o consumo de álcool, regular o peso, tratar hepatites virais.

Uma medida extremamente importante é atuar sobre as comorbidades. Obesidade, diabetes, dislipidemias, hipertensão arterial são condições que agravam a cirrose hepática.

As mudanças no estilo de vida, como dieta equilibrada e exercícios, são fundamentais para casos como a esteatose hepática não alcoólica, que pode ser controlada com alterações na rotina.

Em alguns casos, também podem ser utilizados medicamentos, principalmente na hepatite C.

A vacinação contra hepatites A e B é extremamente importante como medida preventiva.

Para os quadros mais avançados, em que há insuficiência hepática grave, o transplante de fígado é a única alternativa.

Conte com o nosso plano para se cuidar

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A cirrose hepática é uma doença multifatorial, crônica e potencialmente letal, mas em grande parte evitável. O reconhecimento precoce e o manejo adequado dos fatores de risco são essenciais para prevenir sua progressão e reduzir a mortalidade.

Ter uma equipe multidisciplinar para coordenar seu cuidado é fundamental. É o que oferecemos a todo o nosso público beneficiário por meio do Programa Cuidar | Atenção Primária. Em parceria com o Sírio-Libanês, todos os atendimentos desse programa são isentos de coparticipação. Confira aqui como se inscrever.

Autodeclaração de saúde

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Referências bibliográficas

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatites Virais e Doença Hepática Crônica. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Fonte: Fígado - Ministério da Saúde
  2. EASL. European Association for the Study of the Liver. EASL Clinical Practice Guidelines: Management of patients with decompensated cirrhosis. Journal of Hepatology, v. 75, n. 2, p. 589–632, 2021. Fonte: Clinical Practice Guidelines Archives - EASL-The Home of Hepatology
  3. Cirrose - Sintomas, diagnóstico e tratamento | BMJ Best Practice
  4. Cirrose hepática – abordagem diagnóstica e terapêutica | Medicina, Ciência e Arte
  5. WHO. World Health Organization. Global Hepatitis Report 2022. Geneva: World Health Organization, 2022. Fonte: Global hepatitis report 2024: action for access in low- and middle -income countries
  6. jama_tapper_2023_rv_230009_1682950994.35318.pdf
  7. management_of_patients_with_cirrhosis_in_the.12.pdf
  8. Global epidemiology of NAFLD-related HCC: trends, predictions, risk factors and prevention - PubMed

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